Este exercício é puramente exploratório, feito a título de curiosidade, sem pretensões inferenciais ou hipotético-dedutivas. Logo, não houve uma preocupação teórica para a escolha das variáveis incluídas nos modelos. Aqui, explora-se quais os condicionantes, no Brasil, do apoio à afirmação de que o governo deveria levar em consideração estudos feitos por professores e cientistas das universidades na escolha de políticas públicas. Para tal, são realizadas regressões logísticas multivariadas.

Os dados, retirados do The AmericasBarometer, Latin American Public Opinion Project (LAPOP), representam uma amostra representativa da população brasileira, referente ao ano de 2018. Ao todo, são 1498 observações — sem descontar valores faltantes.

Observa-se, em primeiro lugar, que boa parte da população concorda com a afirmação: 84.4% da amostra (1255 entrevistados), como pode ser observado no Quadro 1.

Quadro 1 - estatísticas descritivas

Variable Stats / Values Freqs (% of Valid) Graph Missing
Concordar que o governo deveria levar em consideração estudos feitos por professores e cientistas das universidades na escolha de políticas públicas [numeric]
Min : 0
Mean : 0.8
Max : 1
0:232(15.6%)
1:1255(84.4%)
11 (0.7%)
Afirmar entender de política [numeric]
Min : 0
Mean : 0.4
Max : 1
0:895(60.1%)
1:595(39.9%)
8 (0.5%)
Preferir a democracia como forma de governo [numeric]
Min : 0
Mean : 0.6
Max : 1
0:591(40.2%)
1:880(59.8%)
27 (1.8%)
Acompanhar notícias frequentemente [numeric]
Min : 0
Mean : 0.9
Max : 1
0:117(7.8%)
1:1376(92.2%)
5 (0.3%)
Afirmar ser do sexo masculino [numeric]
Min : 0
Mean : 0.5
Max : 1
0:750(50.1%)
1:748(49.9%)
0 (0.0%)
Acréscimos em anos de idade [numeric]
Mean (sd) : 39.1 (16.2)
min ≤ med ≤ max:
16 ≤ 37 ≤ 92
IQR (CV) : 24 (0.4)
74 distinct values 0 (0.0%)
Acréscimos na paleta de cor de pele [numeric]
Mean (sd) : 4.2 (2)
min ≤ med ≤ max:
1 ≤ 4 ≤ 11
IQR (CV) : 2 (0.5)
11 distinct values 3 (0.2%)
Acréscimos em anos de escolaridade [numeric]
Mean (sd) : 8.9 (3.9)
min ≤ med ≤ max:
0 ≤ 10 ≤ 17
IQR (CV) : 5 (0.4)
18 distinct values 19 (1.3%)
Afirmar ser do sexo masculino [numeric]
Min : 0
Mean : 0.5
Max : 1
0:750(50.1%)
1:748(49.9%)
0 (0.0%)
Acréscimos na renda (quintil) [numeric]
Mean (sd) : 3.1 (1.7)
min ≤ med ≤ max:
1 ≤ 4 ≤ 5
IQR (CV) : 4 (0.5)
1:334(38.1%)
4:291(33.2%)
5:252(28.7%)
621 (41.5%)
Afirmar ser religioso [numeric]
Min : 0
Mean : 1
Max : 1
0:25(1.7%)
1:1457(98.3%)
16 (1.1%)

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2023-08-11


Mas, quais os condicionantes deste apoio? O primeiro modelo (M1), exposto no Quadro 2, dispõe as variáveis socioeconômicas; já o segundo (M2) adiciona às variáveis do modelo anterior fatores atitudinais, ou seja, referentes às preferências dos entrevistados.

Quadro 2 - modelos de regressão logística, afirmar que o governo deve levar em consideração professores e cientistas na produção de políticas públicas

Statistical models
  M1: socioecon. M2: socioecon. + atitudinal
Intercepto 263.63** 415.48
  (0.49) (1.22)
Afirmar ser do sexo masculino 6.54 -5.74
  (0.19) (0.22)
Acréscimos em anos de idade -0.17 -0.94
  (0.01) (0.01)
Acréscimos na paleta de cor de pele -3.27 -1.90
  (0.05) (0.05)
Acréscimos em anos de escolaridade 5.17 3.45
  (0.03) (0.03)
Acréscimos na renda (quintil) 5.49 4.79
  (0.06) (0.07)
Afirmar ser religioso(a)   -50.83
    (1.05)
Acompanhar notícias frequentemente   23.53
    (0.40)
Crer que o maior problema é a má quali. da educ.   21.73
    (0.56)
Afirmar entender de política   66.85*
    (0.25)
Preferir a democracia como forma de governo   150.87***
    (0.22)
Ser de direita   4.20
    (0.22)
Num. obs. 869 772
***p < 0.001; **p < 0.01; *p < 0.05
Elaboração própria.


Focando no segundo modelo, há apenas duas variáveis estatisticamente significantes: preferir a democracia como forma de governo (p = 0.00003) e afirmar entender de política (p = 0.037). Respectivamente, elas estão associadas com um acréscimo de 151% e 67% nas chances de concordar com a afirmação de que o governo deveria levar em consideração estudos feitos por professores e cientistas das universidades na escolha de políticas públicas. A variável com maior associação negativa a essa proposição diz respeito à religiosidade dos entrevistados. Afirmar ter alguma religião está associado com um decréscimo de 51% nas chances; contudo, sem significância estatística (p = 0.5).

A Imagem 1 ilustra os resultados do segundo modelo. Em verde, as variáveis estatisticamente significantes associadas com um acréscimo nas chances de concordar com a afirmação; em azul, as que também contribuem positivamente, mas que não demonstram significância estatística; em vermelho, as congruentes com um decréscimo nas chances. Para verificar os valores exatos de cada barra, basta passar o mouse sobre elas.

Imagem 1 - M2, afirmar que o governo deve levar em consideração professores e cientistas na produção de políticas públicas

Coeficientes apresentados como mudança percentual na razão de chance. Número de observações: 772. *** p < 0.001; * p < 0.05. Elaboração própria.


E com relação aos que discordam da afirmação? A Imagem 2 mostra o agrupamento dos 232 entrevistados (15.6% da amostra) que afirmaram ser contrários à consulta de professores e cientistas na produção de políticas públicas. Para tal, emprega-se uma análise de agrupamento k-means, que particiona as observações (pessoas que discordam da afirmação) através de um número k de agrupamentos, cujas dimensões são dadas pelas variáveis que compõem o Modelo 2.

Imagem 2 - análise de agrupamento, pessoas contrárias à afirmação em foco

Elaboração própria.


Nota-se o agrupamento dos entrevistados em 2 clusters distintos, cujas medidas de centralidade podem ser observadas no Quadro 3. É possível argumentar que apenas duas variáveis distinguem os grupos com maior intensidade: idade e ideologia. No primeiro grupo, temos, em média, pessoas de 57 anos mais à direita. Por sua vez, o segundo grupo é composto por pessoas com, em média, 30 anos, que se posicionam à esquerda do espectro ideológico.

Nas demais variáveis, ambos os grupos são relativamente semelhantes, com ligeiras variações em sexo e escolaridade, sendo o primeiro grupo, em média, mais masculino e menos escolarizado.


Quadro 3 - distinções entre os grupos

Agrupamento Sexo masculino Idade Cor Escolaridade Renda (quintil) Afirmar ser religioso Acompanhar notícias frequentemente “Má qualidade da educação é o problema” Afirmar entender de política Preferir a democracia como forma de governo Ser de direita
1 0.600 56.8 4.50 6.15 2.62 1.000 0.900 0.050 0.275 0.400 0.625
2 0.464 30.1 4.25 10.07 2.94 0.986 0.928 0.029 0.275 0.391 0.377
Elaboração própria.